
A chuva fina causa um efeito fosco nesse amanhecer de quarta, e por mais alguns instantes acredito que este manto opaco é o que me separa daquilo que nunca vi mas sempre posso sentir. A inspiração está sempre “logo ali”, e como nos sonhos em que corremos em direção a algo alcançável, ela aguarda ser concebida. Ela é como uma sutil borboleta em seu jardim, que se equilibra na pétala de uma rosa e passa a acompanhar seu rítmico balanço com a brisa. Você a viu de repente, como um borrão. Quem diria que uma borboleta poderia cortar seus pensamentos para apenas apreciar sua presença? Então você chega cada vez mais perto, com medo de tocá-la e com medo de que ela voe para longe, e com um brusco piscar de olhos indevido, ela voa para longe; logo você está novamente sozinho: sem pensamentos, sem borboleta. Sempre estou com ideias - algumas ruins, porém ideias. Todos têm ideias - algumas vezes iguais, lamento dizer -, mas é a inspiração que nos diferencia, porque ela está diretamente ligado à nossa vida em particular, à nossa visão de mundo e em como achamos que somos visto pelo mundo, e tudo isso transpira um ar de individualidade inigualável. Isso tudo te faz único. Eu realmente não sei como atingir a inspiração. Às vezes me deleito em demasiadas obras artísticas: as ideias sempre vêm, mas nada de inspiração. Agora a chuva cai, e esse texto me parece lógico. Sinceramente, acho que a inspiração é um dom, e costuma visitar os menos ambiciosos com o seu encontro. Ela te pega desprevenido, e isso fascina ainda mais. Em cada texto que finalizo, vejo a inspiração sorrindo em uma imagem imóvel, um tanto que imutável, e depois de certo tempo, seu sorriso já me parece comum e, pior, estranho. Olho meu reflexo no espelho e dou um sorriso. Agora percebo que o que vejo de mim é apenas um reflexo de um momento que eu “queria” me ver. Uma realidade mascarada, momentânea e modelada. Nunca poderei me ver. E assim é a relação da minha inspiração com o texto. Posso vê-la nessas palavras, no passar de cada linha. Se uma borboleta ousar a voltar a pousar em outro objeto em meu jardim, irei abaixar a cabeça e rir baixo. Nada de tentativas de contato: apenas um sorriso ao longe. Com um sussurro tímido, digo: “Bem-vinda ao meu mundo”. E isso deve bastar para uma nova visita.